« em: 23 de Abril de 2010 Ã s 09:04:57 »
Em Junho de 2009, Christian Engström, vice-presidente do Partido Pirata sueco (PPS), surpreendeu até os especialistas mais avisados ao ser eleito como eurodeputado. Engström lembra que o PPS não quer chegar ao governo - apenas pretende garantir que os Estados-membros da UE não violam a privacidade dos internautas em nome da segurança ou dos direitos de autor.
Por norma, os partidos têm projectos para vários sectores da sociedade, mas o PPS está concentrado apenas nas questões dos direitos de autor... não é um pouco redutor?
É verdade, mas essa é a nossa principal força. Quando um pequeno partido chega ao Parlamento Europeu (PE), apenas faz valer a sua posição em duas ou três questões, porque são os maiores partidos que decidem quase tudo. A diferença entre o PPS e os pequenos partidos tradicionais é que o PPS disse, à partida, que as suas "duas ou três questões" são a defesa das liberdades na Internet e a reforma dos direitos de autor e das patentes.
Não será o PPS um fenómeno geracional, que quer capitalizar com o descontentamento dos jovens que foram impedidos de fazer downloads ilegais?
Estima-se que metade dos nossos eleitores tem menos de 30 anos. Mas é preciso ver que a outra metade tem mais de 30, logo não é apenas um partido de jovens. Os downloads existem há muitos anos e não são tema polÃtico.
O PPS foi criado para defender a privacidade e a liberdade de informação na Net ou o direito a um julgamento justo. Todos estes direitos estão a ser ameaçados por editoras e interesses estabelecidos em torno dos direitos de autor...
... e esses interesses contrastam com o programa PPS, quando defende que os downloads sem fins comerciais não podem ser considerados ilegais!
A directiva do reforço dos direitos de autor (IPRED) já permite que empresas privadas monitorizem comunicações privadas, violando a privacidade no mundo electrónico. E há outras leis que estão a violar direitos individuais. Infelizmente, os interesses em torno dos direitos de autor não são a única força por detrás destas leis. Há outras, como os serviços de segurança, que querem saber tudo sobre as pessoas.
Os downloads ilegais não limitam os fins comerciais das empresas que produzem música, filmes ou software?
Talvez sim, talvez não... mas acho que os meus direitos fundamentais são mais importantes do que qualquer negócio que as empresas querem desenvolver. As empresas têm de fazer dinheiro no mundo tal como ele é. E o download é uma parte do mundo de hoje e vai continuar a ser, mesmo que haja empresas a querer fazer negócios. Logo, essas empresas vão ter de se adaptar à realidade. Antigamente, as editoras tinham o monopólio da distribuição porque eram as únicas que conseguiam distribuir música ou filmes a nÃvel mundial. A tecnologia mudou este cenário. O que antes era um serviço centralizado, provavelmente, já não é necessário na actualidade. Logo, essas empresas vão ter de mudar. Há menos de 100 anos, a venda de gelo era um grande negócio. Até que apareceram os frigorÃficos e esse negócio acabou...
Quem o ouvir falar dificilmente acredita que o PPS votou a favor da Regulação das Telecomunicações que permite o corte de acessos à Net de piratas...
Isso não é verdade. A regulação das telecomunicações estabelece que, caso um Estado-membro enverede pela lei do corte de acessos, deve garantir procedimentos justos, que incluem o direito dos acusados a serem ouvidos ou a defenderem-se. Por exemplo, a lei aprovada em França não está em conformidade com a regulação das telecomunicações. E o mesmo acontece nas leis que foram propostas no Reino Unido.
A nova regulação também prevê a aplicação de penas sem recurso a um juiz!
A regulação não diz que o que os Estados-membros devem fazer. Nem obriga à criação de leis que prevêem os cortes de acesso à Net. Apenas estipula que os Estados-membros adoptem procedimentos justos. A regulação das telecomunicações não é perfeita, mas sempre é um primeiro passo na direcção certa. Queremos dar o próximo passo e introduzir uma carta de direitos, que estipula que a Net não pode ser cortada a ninguém, a menos que esteja na prisão. É o que acontece com os telefones e os serviços postais - exceptuando quem está na prisão, toda a gente está autorizada a usar esses serviços. Mesmo quem usou os correios para enviar droga não é impedido de continuar a receber correspondência ou telefonemas. Se alguém for impedido de usar a Net, há uma grande probabilidade de não poder candidatar-se a um novo emprego... ou contactar o seu banco ou reservar viagens de férias. Além disso, a maioria dos jovens de hoje contacta com os amigos através da Net.
Como é que a segurança dos Estados e a investigação policial podem atentar contra os direitos internautas?
Não temos nada contra a polÃcia que espia internautas - desde que haja uma suspeita concreta e com ordem de tribunal, à semelhança do que já acontece com os correios e os telefones. Infelizmente, vários Estados já estão a controlar tudo o que as pessoas fazem na Net, mesmo sem suspeita ou ordem de tribunal. Na Suécia, entrou em vigor, no dia 1 Janeiro, a lei FRA, que dá aos serviços de segurança militares o direito de espiar todo o tráfego da Net que cruza as fronteiras suecas. É algo que viola a Carta dos Direitos Fundamentais da UE. No Reino Unido também há vários sistemas de segurança que vigiam o que as pessoas fazem na Net. E há ainda a directiva de retenção de dados de tráfego, que permite a recolha de informação e dá o poder à s autoridades para fazerem o que quiserem com ela, sem suspeita ou ordem de tribunal.
Mas há cada vez mais provas de que o crime organizado também usa a Net para fazer negócios...
Como há provas de que os criminosos usam as ruas, telefones ou correios. A questão é que estas leis não chegam a afectar os criminosos porque eles sabem o que têm de esconder.
Qual a agenda polÃtica do PPS para o PE?
Queremos continuar o debate sobre os direitos fundamentais na Net. Num plano diferente, sabemos que a Comissão Europeia quer legislar sobre as "obras órfãs", cuja maioria foi criada no século XX ou antes e não tem autor registado. O PPS defende que todos os trabalhos, cujos direitos não tenham sido registados, devem ser usados livremente.
As patentes de software podem vir a ter leis similares?
As patentes de software são ilegais (na Europa) e devem continuar a sê-lo. Precisamos que alguém obrigue o Gabinete de Patentes Europeu (GPE) a respeitar a lei, mas infelizmente ainda ninguém descobriu a melhor forma de o fazer. O artigo 52.º da Convenção de Patentes Europeia estipula que nenhum programa de computador pode ser considerado uma invenção - logo não pode ser patenteado. O problema é que o GPE recebe dinheiro por cada patente e acaba por aceitar patentes de software. Em geral, as patentes são prejudiciais para economia e para a inovação.
Os americanos patenteiam tudo e mais alguma coisa e não parecem ser muito pobres...
É verdade, mas não é por causa das patentes que estão ricos. Os americanos têm interesse em que o resto do mundo tenha um sistema de patentes forte, porque isso significa que todos vai pagar algo aos Estados Unidos sem nada receber em troca.
Já há outros partidos com o mesmo nome noutros paÃses. Acredita que pode este movimento pode ganhar dimensão e peso na UE?
Espero que sim, mas mais do que isso, espero que os outros partidos copiem as nossas ideias. Nós somos piratas, nada temos contra as cópias!
Fonte:
http://aeiou.exameinformatica.pt/eu-pirata-me-confesso=f1005735
So long as the people do not care to exercise their freedom, those who wish to tyrannize will do so; for tyrants are active and ardent, and will devote themselves in the name of any number of gods, religious and otherwise, to put shackles upon sleeping men. ~Voltaire