Está. Mas a maioria ainda não a usa bem.
No intenso período eleitoral da última metade do ano passado, os políticos surgiram na Internet quase à velocidade com que as andorinhas aparecem na Primavera.
Criaram blogues, páginas nas redes sociais, deram conta das suas agendas, passaram mensagem política, atacaram os adversários e alguns relataram até a sua vida pessoal. Foi, sem dúvida, a maior campanha de sempre feita na Internet em Portugal. Findo o período eleitoral, muitos saíram tão depressa como entraram.
O que ficou desta migração política? O debate ganhou ou perdeu com tal proliferação? Os políticos tiram o melhor partido desta poderosa ferramenta? Qual é o peso desse debate hoje na Internet? Como é que ele vai evoluir em novo ano politicamente forte? Quais as diferenças entre a intervenção feita em blogues e em redes sociais, como o Twitter e o Facebook?
Um grupo de políticos, jornalistas e politólogos, todos com presença regular na Internet, respondeu a estas perguntas e analisou a importância do debate político na Net. As opiniões dividem-se em muitos pontos, mas há um foco de convergência: os políticos portugueses em geral ainda estão longe de utilizar esta poderosa ferramenta da melhor maneira, mas não há marcha atrás.
Os políticos que navegam na Net de modo mais persistente usam-na de formas muito diversas. Uns são absolutamente formais. Vêem a Net como uma poderosa ferramenta política e focalizam-se no tema, na defesa dos seus objectivos e raramente se desviam deste caminho. Outros, a maioria, são menos formais. A política está muito presente, mas não fogem a uma conversa sobre música, gastronomia ou futebol. São estes que habitualmente mais interagem, muitas vezes com desconhecidos, com quem os interpela na rede.
Comecemos pela visão dos mais críticos à forma como os políticos em geral usam a Internet. José Pacheco Pereira, deputado do PSD, comentador político e autor do Abrupto (
http://abrupto.blogspot.com/), um blogue de referência no panorama político, afirma que "para muitos, por ignorância ou desinteresse", estar na Net "é mais uma obrigação de campanha do que uma actividade sistemática". "Dizem-lhe que têm que fazer umas coisas na Internet e eles fazem ou mandam alguém fazer por eles. Depois vão-se embora", diz Pacheco Pereira, considerado por muitos o principal impulsionador do debate político na Net em Portugal.
Para o social-democrata, "infelizmente, os políticos que "melhor proveito" tiram da Internet" fazem-no num contexto de "destruição simbólica do adversário, desinformação, condicionamento da comunicação social, com falsas "vagas" de opiniões". "Há muitos jornalistas que se comportam da mesma maneira, logo a simbiose dá resultados num empobrecimento dos media em geral."
Falta de perseverança
José Manuel Fernandes, jornalista, ex-director do PÚBLICO e que tem presença regular nas redes sociais, partilha da opinião de Pacheco Pereira. Refere a presença "residual" de políticos na rede, que "não é eficaz por falta de perseverança" e de "sentido do que pode ser interessante e útil para as pessoas". E o pior, acrescenta, é existirem na blogosfera "demasiados jornalistas e, sobretudo, demasiados anónimos a discutir política", de forma que, "muitas vezes", a discussão aproxima-se "mais do terrorismo que de uma discussão séria".
Por isso, Fernandes, que partilha na Net muita informação que lê na imprensa e nos sítios de debate político a nível internacional, considera que "muito marginalmente a blogosfera marca o debate político" em Portugal. "São raras as discussões que saltam da blogosfera para os espaços de grande informação e há demasiadas tricas em alguns debates."
Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, politólogo, autor do também blogue de referência Margens de Erro (
http://margensdeerro.blogspot.com) e frequentador do Twitter, tem igualmente uma visão crítica do proveito que a classe política tira da Internet: "Os políticos portugueses só parcialmente dependem dos eleitores para atingirem e preservarem os seus cargos. "Lugares elegíveis" são, por definição, "elegíveis" independentemente dos resultados eleitorais, e quem decide quem vai para esses lugares não somos nós, mas sim as direcções partidárias."
Logo, acrescenta, só os políticos "em posições mais incertas e periféricas têm incentivos para de facto comunicarem com os cidadãos e terem uma actividade continuada na blogosfera". "Para os outros, é um brinquedo passageiro, montado e preservado por funcionários. Há excepções - e boas claro - mas são excepções."
Porém, Magalhães considera que o debate político na blogosfera e no Twitter "é mais plural do que nos media tradicionais". Para Magalhães, também responsável pelas sondagens eleitorais do Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Católica, há "mais pessoas, mais ideias diferentes, mais diversidade de registos e tipos de debate".
Inúmeras possibilidades
Paulo Querido é uma espécie de mister Internet. É jornalista, um dos portugueses mais seguidos nas redes sociais, bloguer, consultor em new media e Tecnologias de Informação e Conhecimento e responsável pelo jornal on-lineDiario2.com. A sua visão sobre a participação e o valor do debate político na Net é bem mais positiva. Não tem dúvidas de que o debate político na Internet deixa marcas. Para ele, é natural que haja maior participação durante as campanhas políticas e que depois alguns se afastem, mas recusa-se a generalizar: "Vai aumentando o número deles [políticos] que já faz da participação nas redes uma actividade regular. (...) O défice de cidadania e de participação política nota-se mais fora da classe política e de alguma "elite" interessada."
Para os políticos que chegaram e ficaram nas redes sociais e nos blogues, a Internet é uma ferramenta que não dispensam para a divulgação da mensagem política, da sua actividade e para a interacção com os eleitores.
Prodesse et delectare
A eurodeputada socialista Edite Estrela entrou no Twitter durante as campanhas eleitorais do ano passado. Foi uma das mais activas militantes do PS nas ruas, mas também nas redes sociais e, depois de eleita para o Parlamento Europeu, passou a usar a rede para principalmente dar conta da sua actividade. Quase sempre responde aos cidadãos que politicamente a interpelam, é muitas vezes dura nas críticas aos seus adversários políticos, mas não se coíbe de ter também uma opinião afastada da política, especialmente quando o seu Benfica ganha.
Estrela reconhece que o ""reino" da Internet ainda é um ilustre desconhecido para muitos políticos", mas acha que ele é hoje "um instrumento indispensável e com inúmeras possibilidades". "A blogosfera e as redes sociais têm tanta importância [no debate político] como os media tradicionais. Verifica-se, aliás, uma interacção mútua. O que é natural, uma vez que há actores comuns. Há jornalistas que tanto escrevem nos jornais como nas redes sociais e Internet, diz, acrescentando que tem uma relação "descontraída e descomplexada" com o Twitter. "Parafraseando a máxima de Horácio, prodesse et delectare. O Twitter, sobretudo, é útil e divertido."
Informação
O economista e militante social-democrata António Nogueira Leite é outro forte activista político no Twitter e Facebook e recentemente associou-se à blogosfera ao entrar no Albergue Espanhol (
http://albergueespanhol.blogs.sapo.pt). Nas redes sociais é capaz de entrar na mais séria discussão política, ao mesmo tempo que coloca música ou fala de gastronomia ou futebol. Não se vê "a pertencer à cúpula executiva" do seu partido ou a "qualquer governo nos próximos anos", pelo que a sua relação com a rede "é um mero instrumento de debate, informação e entretenimento".
A saída da Internet de muitos políticos após as eleições é para Nogueira Leite o sinal que "estes ainda não perceberam totalmente a sua importância".
O social-democrata tem uma apreciação curiosa sobre a forma como a blogosfera e as redes sociais marcam o debate político. "A blogosfera tem um papel importante mais pelo feedback que lhe é dado em certos círculos do que pelo que penso seja o seu impacto real no eleitorado. O debate político é mais encarniçado nos blogues por várias razões, seja pelo reforço do reforço mútuo nos blogues colectivos, seja porque em Portugal a geração dos universitários abaixo dos 35 anos é significativamente mais agressiva do que as precedentes, sobretudo quando não está frente-a-frente. Diria que, para alguns desses jovens, a intermediação cibernética é um estimulador da coragem. Aliás, por vezes, esta geração só percebe o grau de acutilância a que chega quando alguém lhes responde no mesmo tom", acentua.
Já o Twitter, diz Nogueira Leite, é um caso à parte, "pois é usado em simultâneo por actores muito diferentes com propósitos muito díspares": "Admito que não seja tão eficaz do ponto de vista da passagem de mensagens, dada a restrição imposta pela síncope de cada frase a 140 caracteres."
No ano passado, uma iniciativa que começou no Twitter acabou por saltar para a maioria dos órgãos de comunicação social. Desafiado por alguns dos seus seguidores na rede social, o deputado socialista Jorge Seguro Sanches organizou uma visita ao Parlamento em dia de debate quinzenal com o primeiro-ministro. Foi um sucesso e para o futuro ficou a disponibilidade de o deputado voltar a organizar iniciativas do género.
Segundo Seguro, a participação dos políticos na Net "é um dever que se está a formar junto de quem desempenha funções públicas". Esta participação "pode marcar" o debate e é fundamental "para quem quer fazer melhor o seu trabalho". Em especial, "se o trabalho incluir ouvir e ter em conta a opinião dos outros".
"O Twitter é bastante útil: não só permite que a melhor informação me chegue mais rapidamente como permite uma troca de comentários com muitos seguidores. É gratificante e enriquece bastante a minha acção política", diz. "Para eles é também a possibilidade de saberem que há um deputado que tem em conta (em todos os momentos) a sua opinião."
Jovens e entusiasmados
Para a mais jovem geração de políticos, que já aprendeu a escrever em teclados de computador e trata-se na Net por "tu", a sua presença política é tida como absolutamente natural. Michael Seufert, líder da Juventude Popular (CDS/PP) e com presença nas redes sociais e na blogosfera (
http://oinsurgente.org), e Luís Menezes, do PSD e com contas no Twitter e no Facebook, foram eleitos deputados pela primeira vez nesta legislatura. São unânimes ao afirmarem que a maioria dos políticos ainda não tira o melhor proveito da Internet e que chegar à rede e depois sair é um erro.
"É sempre difícil contactarmos com as pessoas e estas muitas vezes estão longe de saber o que fazemos, como trabalhamos e o que pensamos. O blogue e o Twitter são ferramentas indispensáveis para ajudar o meu contacto com os interessados e não estou muito tempo sem os actualizar", diz Seufert.
"As redes sociais e os blogues permitem um contacto mais directo e sem filtros com eleitores e interessados na mensagem que tenhamos a passar, e isso favorece a disseminação da informação e o debate de ideias", acrescenta Menezes, elogiando Pacheco Pereira, que considera ter sido um "dos grandes impulsionadores desta forma de fazer política".
A palavra final fica com o mister Internet. Paulo Querido conclui que as tecnologias de informação beneficiam também a política, "na medida em que permitem perceber um pouco melhor o estado das sociedades". "Sem as usar, fica-se à mercê do incrível nível de ruído que a rede gera."
in:
http://www.publico.clix.pt/Pol%C3%ADtica/a-politica-esta-na-internet-esta-mas-a-maioria-ainda-nao-a-usa-bem_1419411