Desde que sou a favor da pirataria que a defendo como sendo ética e moral. Na lista dos valores a que dou grande importância, a coerência é um dos que considero mais importantes e não poderia ter defendido uma posição se não a achasse coerente com as restantes posições que mantenho e com os restantes valores que defendo. Dessa forma se considerasse a pirataria como algo imoral não a defenderia. Não o acho e por isso defendo-a e defendo-a como sendo totalmente moral.
Só por um motivo de full disclosure, acho que é importante, antes de continuar, deixar aqui claro que sou uma pessoa religiosa e espiritual (presumo que ao contrário da restante maioria que por aqui anda). Sou Cristão mas não sou Católico. (A diferença é enorme entre ambos mas se alguém achar que ela não existe, acho que este não é o local para se discutir isso. Nem quero aqui discutir religião de forma alguma.) E mais, essa religiosidade e espiritualidade são partes importantes da minha vida e sou relativamente activo nesses campos. Considero então que o acto e a ideologia da pirataria estão inteiramente em concordância com uma moral Cristã.
Como disse anteriormente não sou Católico e não tenho nenhuma consideração especial pela igreja ou pelas suas hierarquias mas achei sobretudo curioso quando ontem e hoje novamente a p2p foundation publicou artigos sobre uma mensagem do papa que tocam um pouco neste assunto. (Não considero, nem quero deixar passar essa imagem, o papa como algum tipo de autoridade moral.)
1º artigo: Pope Benedict’s encyclical denounces excessive assertions of IP rights in knowledge2º artigo: The pope and the ethical economyGostaria de destacar este trecho do 2º artigo, que se encontra também já destacado no mesmo
The human being is made for gift, which expresses and makes present his transcendent dimension. Sometimes modern man is wrongly convinced that he is the sole author of himself, his life and society. This is a presumption that follows from being selfishly closed in upon himself
Esta ideia está de acordo com algo que já defendo há muitos anos.
Está de acordo com o slogan adoptado pelo movimento pirata de que "Sharing is caring".
Essa ideia é a de que a partilha é uma forma de generosidade. Fazer algo pelo outro. Quem partilha está a dar algo à comunidade, está a fazer pelos outros. Está a gastar a sua largura de banda, o seu espaço em disco para beneficiar outros. Isto é generosidade.
O outro lado, a ideia de que "Só levas o meu trabalho se pagares." é uma posição declaradamente egoísta. Ora vejamos:
- Uma cópia não implica a perda de uma compra. Todos sabem que isto é verdade e o argumento é utilizado apenas para tentar chamar a atenção. Ou seja,
se eu copio, o autor original não perde nada.- Muitos dos piratas copiam inúmeros trabalhos que nunca comprariam. A implicação disso é que se não existisse a pirataria uma grande maioria das pessoas teria muito menos acesso a obras culturais do que tem com a pirataria. Não existiria nenhuma diferença económica para os autores, existiria apenas uma diferença no acesso à cultura para os piratas. Uma sociedade com um maior acesso a obras culturais é mais rica culturalmente do que uma com um menor acesso a essas mesmas obras. Não existindo diferenças a níveis económicos, não há outra justificação plausível.
- Temos então o argumento de que: "Se queres ter acesso tens de pagar, não me interessa que não pagarias se não conseguisses aceder de graça!". Este argumento não é mais do que "Ou pagas ou não tens acesso". Não é um argumento para proteger perdas, é um argumento à caça de lucros.
Ou pagas ou não tens acessoQuem não paga e tem acesso à mesma não afectou nada pois se não tivesse acesso também não pagaria. Logo o que temos aqui é uma posição de egoísmo puro. É um dizer: "Só quem eu quero", "Só se eu ganhar", "Eu é que mando", "Eu quero posso e mando", "O poder é meu", "O controlo é meu", "Eu, eu, Eu, EU, EU, EU, EU, EU".
Não tem nada a ver com a cultura ou com o acesso à cultura. Isso é irrelevante. É isso porque calhou a ser isso. Se fosse outra coisa também servia. O importante é ter lucro, o importante é as pessoas pagarem. Não se quer saber o que as pessoas fariam noutra situação (se não tivessem acesso), quer-se sim que elas façam o pretendido, PAGAR!!
Ou pagas ou não tens acessoMuitas pessoas considerariam isto como chantagem do mais óbvia possível.
(Convém não confundir isto com a ideia do "ou pagas ou não tens acesso" dos produtos físicos pois aí o vendedor perde o seu produto quando o troca pelo dinheiro pedido. O comprador não poderia ter acesso sem pagar. É a grande diferença entre o roubo e a cópia e é o que faz a diferença entre um poder ser visto como chantagem e o outro não.)
Ou pagas ou não tens acessoTemos então de um lado um movimento que quer partilhar, espalhar informação e conhecimento e cultura e que dá de si para fazer com que os outros também possam ter acesso a esses bens.
Do outro lado temos um movimento que quer tudo para eles, controlar tudo e fechar egoísticamente o acesso a menos que sejam cumpridas as suas condições.
O que me espanta é como é que ao longo do tempo o lado do egoísmo tem conseguido passar a sua visão como estando correcta e conseguir transformar um sentimento de irmandade e de caridade, um acto de devoção para com os outros em algo pernicioso para a sociedade.
No documentário "On Piracy" (que tive oportunidade de discutir um pouco estes assuntos com o autor, num outro fórum onde participo) pode-se ver um representante da correspondente da RIAA no Canadá e na entrevista ele defende exactamente a "Não partilha" e defende-a com base de que os bebés têm um sentimento natural egoísta de não partilhar com os outros.
Ora isso é verdade mas tem uma razão de ser. Acontece numa idade em que a criança ainda não desenvolveu a noção do outro. Ainda não está consciente de que existem outros e que não é o centro do mundo. É uma fase por que passamos enquanto a nossa noção da realidade, o nosso cérebro e a nossa mente se desenvolvem.
Não nos devemos esquecer que essa noção do outro, de que não somos o centro do mundo e o sermos bons para os outros, é algo que todos os pais tentam ensinar aos seus filhos, é algo que é considerado bom, algo desejável para um ser humano individual e para toda a raça humana.
É todo o conceito do fazer aos outros como gostava que me fizessem.
Partilhar é isso mesmo, é oferecer aos outros, fazer pelos outros como gostava que me oferecessem e me fizessem.(sorry pelo tamanho mas tinha isto enfiado e precisava de sair. estes artigos foram a desculpa.)